segunda-feira, 2 de agosto de 2010


"Uma lagarta pequena encontrava-se dentro do livro.
Estava incrustada nas primeiras páginas e se afundava até o meio.
Via-se o vertebrado do seu corpo. Tinha olhos ainda, o globo
ressequido; em redor, o cavo do primeiro abismo. O papel
confundia-se com o osso. As letras esparsas tiveram um dia o
odor alcoólico da tinta, agora mancha velha de um desenho
tosco. A aspereza tênue da textura envolvia o bicho. (...)
Quem sabe tudo ali não fosse querido, também a lagarta. Recolhi o cadáver. O
poeirento da ação veio parar nos meus pulmões: desde então,
mora um réptil em alguma parte do meu ser. Não há de ser no
pensamento. Não ouso dizer que seja o meu corpo. Dessas coisas
difíceis. A voz de dentro das coisas dizia ser a alma um peso
entre o mandar e o ser mandado... A voz era a tristeza do livro
perdendo a sua companheira, e eu, intrusa, espalhando pó e pó
pelo chão da biblioteca. Roubei palavras do pequeno animal e as
histórias que o contam. Roubei, tenho meus direitos: sempre há
mais de quarenta ladrões. Agora sou réptil deslizando para dentro
dos rios alheios. Moro, todavia, no deserto. Solidão de areia."

                                                           
                                                  Prólogo do livro A mulher de costas, de Marcia Tiburi.

Um comentário:

Thaís Barreto Viana disse...

esse livro é bem doido... mas é cheio de simbologias, simbolos e quebra com aquela sequencia lógica q conhecemos...! beijos