segunda-feira, 30 de agosto de 2010

PercebendO.

Vai andando pela rua de cabeça baixa. Imaginação e asfalto.
Ele jogou na sua cara os momentos em que necessitou da presença dele
em seus dias, fez questão do olhar, do sorriso e da amizade que um dia
quis lhe ofertar, como se tudo não fosse de graça. Era para ser.
Por todos os lados, quem são todas essas pessoas?
Quem são para que signifiquem tanto e afetem tanto os seus ânimos e procederes?
Se existem várias realidades e versões da verdade, qual lhe satisfaria mais?
Em qual caberia melhor os seus desejos e a sua fome?
Tantas gentes, tantas satisfações, procuras de agrado, falta de espaço.
Em seus dias novos, com sentimentos antigos, conseguia se concentrar apenas numa tarefa,
apenas uma faria razoavelmente, sem querer desistir da vida que levava.
Gritar para os importantes que não faz sentido.
Que não é essa a realidade que sempre quis.
Reaprende com as solidões de agora, com o nó na garganta,
com a vontade de não ser mais uma.

"Saiam todos da minha cabeça!
Quem lhes deu toda essa liberdade para estarem passeando
tanto nos meus pensamentos e causando esse dolorido sentimental?
Quem são vocês em minha vida?
Não os reconheço."

Coloca o dedo na cara.
Sol do meio dia.
Ela bate a porta.
Cai no mundo.
Nega a vida.
Seu peito nunca mais será mudo.






"Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a  pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio."

A flor e náusea, Drummond*

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