Colocou a mão no bolso e retirou um pedaço de papel velho e machucado.
__ Toma! Depois você lê...
__ O que é?
__ É o que poderia ter sido... Eu queria ter acertado, sabe? Você entende?
__ ...
__ A vida seria mais fácil se a gente tivesse alguém sempre orientando, alguém com quem desabafar às vezes, alguém que possa dizer que você fez burrice, alguém que você respeite o suficiente para conseguir ouvir e ser ouvido. (...) Eu já vou... Me diz alguma coisa...
__ ... Se houvesse uma fresta que fosse de esperança e de arrependimento sincero,... não sei, de mudança genuína eu voltaria. (...) Estou cega, não vejo nada além do que já vi...
Ele colocou as mãos nos bolsos, olhou o horizonte, engoliu um choro engasgado, fechou os olhos: o vestido florido dela, o rosado da tarde e a dor.
__ Eu já vou...
Foi sozinho pela avenida movimentada. E a tarde lenta e quente.
"Quando é que se sabe que se está amando? Quando se percebe que o seu amor está se perdendo, esvaindo, escorrendo das mãos molhadas feito areia de praia, onda engolidora do meu sonho, responsavél pelos meus desejos infantis insaciados. A primeira vez selaria os seus beijos na minha boca diariamente sedenta, seus passos nos meus caminhos e seu nome em cada página da minha vida. O amor vindo ocupar todos os lugares do meu teatro de solidões, espetáculos semanais de dores eternas, baú guardando todas as vidas e todas as histórias. Me chame de meu bem, queira ter um filho comigo, morar numa casa pequena e arejada. Nossos dias coloridos, acordar com os seus olhos fechados e a sua presença pacificadora sempre diante de mim, acessível ao meu carinho e as minhas mãos desenfreadas, decorando o seu corpo. Fala baixinho aos meus ouvidos que realizo o teu pedido, cheio de mimosidade e eternidade. Meu primeiro e último amor. Esteja aqui e lá para minha necessidade. Seja meu e de mais ninguém. Não sei amar, amei demais e perdi o que mais queria. Para sempre meu bem. Para não esquecer. Para não ir embora. Para me ajudar a te libertar. Me fazer entender que se não soube há quem saiba amar com mais destreza e coragem, com mais consentimento do que me foi dado. Guarde nossas cartas, nossas fotos e nossos momentos naquela caixa de surpresas no fundo do guarda roupa. Mostra a teu filho no futuro, para que ele aprenda desde cedo que todo cuidado é pouco quando se encontra uma verdade, quando se encontra a si mesmo no olhar de outra pessoa. Ensina a ele a ser destemido para que ninguém interrompa o seu caminho, não o faça desviar o olhar daquilo que se quer. Há vazios em todos os lugares, espaços onde você deveria estar. Outro nome, outro alguém do seu lado, nuanças do seu cheiro, seu sexo, seus medos confidenciados em dias de insatisfação humana. Segredos que jamais adivinharei."
Seria seu ponto final? Recomeço? Ele só queria andar.
Ela? Queria que algo muito maior acontecesse e calasse aquela dor que gritava dentro dela e ao mesmo tempo lhe tapava a boca, os sentidos.
Muito mais que amor, muito mais que dor ... era a vida.
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