O acinzentado de ontem
perdura nas cores novas que se insinuam.
E daí que ela não consiga ser o que é?
Ela se confunde, complica, fica estática diante da dor.
Talvez tenha achado a porta no fundo do poço.
Voltou.
Não tinha ninguém em casa.
As ruas estiveram vazias
Há muito tempo não pára e olha as estrelas.
Que vida terá se esqueceu daquele sonho,
se perdeu aquele seu jeito de sorrir,
a vida não lhe faz mais cócegas?
A maioridade trouxe-lhe uma realidade de pedra,
indiferença, desperdício, discriminação...
Tem uma pedra no caminho...
a pedra estática, estagnada... e eu não sei o que fazer com ela, ou dela.
Poderia pular, poderia rolar, poderia talhar um poema
... mas ainda não sei como se faz.
Mas sei que existe a possibilidade.
"Não é a pedra.
O que me fascina
é o que a pedra diz.
A voz cristalizada,
o segredo da rocha rumo ao pó.
E escutar a multidão
de empedernidos seres
que a meu pé se vão afeiçoando.
A pedra grávida
a pedra solteira,
a que canta, na solidão,
o destino de ser ilha.
O poeta quer escrever
a voz na pedra.
Mas a vida de suas mãos migra
e levanta voo na palavra.
Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.
Eu digo: na figueira nasceu uma pedra."
Mia Couto, poeta moçambicano*
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