Os dias parecem estar todos, completamente lotados.
E o tempo do dia é curto para ser e fazer o que se precisa,
o que é realmente importante para alimentar a alma
que tem fome, tem sede, tem angústia.
É preciso conservar algo de seu, de bem pessoal,
de bem íntimo, só seu, no seu universo rebuliçante.
Precisa de paixão, de revolta, de solidão... para ser o que precisa para não morrer.
POdia não ser inteira feita só dela, mas precisaria de boa parte ter muito dela,
dos sonhos e sabores dela, percebidos por ela.
Por que será que tinha, indefinidamente, essa necessidade
tão absurda de se expandir, de criar uma realidade nova, diferente,
ou de perceber por uma ótica alienígena tudo que estivera
ao seu redor, que viria, que poderia ser?
Tinha um tédio enorme da vida.
Por isso gastava-se em divertir e colorir a vida dos outros.
Queria ser um caleidoscópio humano, apenas perceptível a alma.
Isso era o seu alívio, a sua porta de saída, a sua maneira de respirar
ante sua sempre verdade de peixe fora d'água.
"Querer que qualquer um seja sensível ao nosso
mundo íntimo é o mesmo que estar sentindo um
zumbido no ouvido e pensar que o nosso vizinho de ônibus
o possa escutar. "
Mário Quintana
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