Mas bem devagar vão mudando as coisas
dentro deste mundo "de mim", que estava
todo pelo chão, rasgado em pequenos pedaços,
eu havia começado a colar, mas chegaram e
desfizeram tudo.
Os dias vão passar com essa dor mansa,
e eu desejando que nada disso tivesse acontecido.
Algumas coisas não voltarão mais para o lugar,
outras não terão mais lugar.
Eu deixei de querer coisas que eu quis por muito tempo,
demorei tempo demais pra perceber.
Eu desperdicei muito tempo, e ainda hoje, ainda agora,
sempre desperdiçando tempo demais...
Com a dor da minha ingenuidade morta.
Talvez a pena por ela ter morrido e eu ter ficado.
Existe mesmo um lugar para o que eu sou?
Ando cansada de matar sentimentos,
de sufocar as possibilidades.
HOje o dia foi extremamente fechado,
HOje o mundo foi esquisito,
as pessoas foram loucas,
e tudo não passou de inverdades sussurradas
em fios ópticos e ladrilhos de cimento.
Hoje eu quis chorar, mas ele ficou entalado,
guardado para outro momento,
noutro tempo onde um choro tenha mais dignidade.
Onde um sentimento seja coisa sagrada, respeitada.
As vezes a solidão é até pecado.
Como pode sempre carregar
a dor na solidão da dor? Do significado da dor?
Do tamanho da dor? Tudo num coração só?
Numa ciência só?
O sono é remédio para os que sofrem,
é descanso para a dor.
Mas e como fazer com aqueles que não dormem?
Só um pouco de descanso para quem não sabe a causa
de tanta maldade sentimental, de tanta... injustiça?
De coisas que ainda não sabe definir...
Ó sono! Unge-me as pálpebras…
Entorna o esquecimento
Na luz do pensamento,
Que abrasa o crânio meu.
Como o pastor da Arcádia,
Que uma ave errante aninha…
Minh’alma é uma andorinha…
Abre-lhe o seio teu.
O leite das eufórbias
P’ra mim não é veneno…
Ouve-me, ó Deus sereno!
Ó Deus consolador!
Com teu divino bálsamo
Cala-me a ansiedade!
Mata-me esta saudade,
Apaga-me esta dor.
Hino ao Sono, Castro Alves
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