sábado, 24 de fevereiro de 2024

lágrimas sólidas

Se você chorasse lágrimas de diamante
Não passaríamos mais fome
teríamos o que vestir, como sair e voltar
uma casa para morar e viajar para ver o mar

Teu choro tem tanta dor e eu pergunto
"O que vai fazer com isso?"
Como se o choro fosse em si resolver
todos os problemas que nos agarram pelas costas
nos espacam à noite e de manhã
pinta a nossa cara com um riso que perdemos

Se você chorasse menos
se chorasse mais 
se não chorasse tanto...
a minha esperança se uniria a faísca da tua
e uma oração cansada faria para aliviar 
tua alma tão encarnada e fria

Mas só acontece eu tentando sair desse
cerco onde teu choro é canto
e você, pássaro engaiolado de asa cortada



terça-feira, 13 de junho de 2023

Angela

Deitada na cama do desespero
Lágrimas inundando o travesseiro
Será que sabe que pode sair? Saída? Por onde?
Começar, terminar, continuar
dizer "até breve!" descontinuar?
Escreve no vento, no tempo, naquilo que se tornará esquecimento
Mesmo não conseguindo papel e caneta
Mesmo seus dedos sem alcançar o teclado
Escreve com o pensamento
Se deixar fazer e desfazer por esse processo
É só mais uma fase ou conseguirá conversar com o seu desejo
dissuadir o seu corpo, exercitar a sua voz, acariciar suas mãos
diminuir o tremor, o dolorido no centro do seu peito.
As lembranças lhe salvarão? Lhe manterão de pé?
Vozes, conversas, sorrisos...
Se percebeu amando mais a palavra falada do que a escrita
Sons que acordaram, trouxeram Amor de volta
Quer a sua própria presença presente
Viver seus espaços de solidão, seus lugares de solidão presente
Presentes dentro da solidão foi onde lhe nasceram lembranças
do amor e seu escopo, espaço, seus sons, imagens
signos que lhe desenham, colorem sua pele
"Seu corpo é uma tela. Uma folha de papel perfeita."
A falta que criou o desespero 
ou o desespero danificou seus sentidos e tudo foi consumido pelo medo
Onde, talvez agora, algo que não ousa, talvez ainda, chamar pelo nome
acordou a memória de algo acolhedor, seguro e possível
para ser, levantar, deitar, comer, experimentar
Ser toda ela, só ela, também ela pelo início e primeira vez
Sem ser fresta, pela metade, triste, sem sorriso, sem sua existência abafada estragulada desconhecida
Deitada dentro e fora do tempo
depois de tanto e muito... uma prece
Por um começo e não pelo fim.




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

palavras ditas

Eu não deveria dizer que te amo
Eu não amo
Não deveria falar de amizade 
quando ela não mais existe
Não falar importâncias em vão

Por que quando o controle sobre a consciência vai sendo liberado
saem de mim noções das quais, possivelmente, nunca sairiam se eu ainda
estivesse sóbria?
Talvez o amor não seja por ele, ela ou por alguém
Talvez sejam todas as coisas minhas sufocadas dentro de mim
e quando externadas precisa existir um foco

Como procurar alguém para que me dê respostas
quando sei que não há sequer alguém que vá entender 
nessa lista telefônica sem sentido ser mantida

Estou indo embora das pessoas e de realidades
Indo embora de ambientes e atitudes

Criando pontes, atalhos, estradas inteiras
enxergando caminhos, escrevendo e descrevendo
o que vejo, sinto, pressinto, escuto, embaralho, 
o que quero esquecer


quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Talvez é esperança?

 "Você acha que consegue ir muito longe?"

Me debater interiormente tornou-se quase tão natural quanto um suspiro, um soluço...
Talvez e provavelmente eu não faça metade do que imaginei
Não tenha aquele trabalho
Não escreva aqueles livros
Não conheça ou reconheça aquele amor
Nunca tenha uma casa perto do mar
Ou qualquer sonho possível realizado

Talvez eu continue nesse estado latente de desespero
que não é em nada confortável nem algo a que eu tenha me acostumado
Me debato constantemente porque estou presa
Gritando diante dessas grades
Rasgando os pulsos
Perdendo o rumo interior 
Ninguém nunca aparece

Nada muda se eu mudo
Eu mudo e tudo igual
Vou embora e tudo igual ainda embora eu mudando
busque enxergar diferenças
Meu tempo é hoje e minha companhia de viagem a solidão
Preciso estar, agora, profundamente, sozinha

Preciso de livros, preciso de fadas, de cor, de água
Preciso ser alquimista, tornar-me, engolir o devir
Alma de vir a ser
caleidoscópio
caos
Aprender o balanço

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

tic tac

 uma bomba relógio perto de explodir
Era eu Era assim era sempre

Você precisa dizer o que você quer dizer para quem você quer dizer?
Nem todo mundo gosta de doce
É difícil não ter a consciência afetada pelos tantos mecanismos
de conceitos, pré-conceitos, bom ruim não cabe cafona nada a ver 

com o que ela se admira eu me espanto de horror
no que ela acredita e se faz felicidade
se tornou dequequilíbrio surtos excessos falta de memória
vergonha despersonalização

quem eu sou
que eu era quem era eu

eu pensei que eu soubesse Não sei

Uma bomba relógio

Era porque sempre estive na linha rigorosamente
e não sou linear
sufocada eu era colocada em riste
uma hora tudo ia desandar

a explosão está acontecendo
não foi segundos
está em looping



quinta-feira, 8 de setembro de 2022

 Porque eu ouvi a sua voz e fiquei emocionada

E sorri o sorriso saboroso que pouco me chega a boca

Então, mesmo que não seja ou esteja à altura,

Eu também deixo que a minha voz seja ouvida

Desejando que ela chegue ao teus ouvidos como música

E, talvez, amanhã, quem sabe? Possa te fazer dormir como

Canção de ninar.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

As folhas da vida nas pétalas da rosa

Portas trancadas, janelas fechadas, campainha desligada
Não direi que não receberei ninguém hoje
não recebo há muito tempo
Estou cansada de estar cansada e por todo lado
que me viro, por toda leitura que me debruço, a familiaridade das coisas
me causam incômodos, tudo se parece tão igual
ao passo que leio que são fantásticas
Não há ninguém à porta, à caminho
Ninguém à cavalo ou de moto
Ninguém caminha sozinho por entre a movimentação do meio-dia
e pensa em ajudar a resgatar outro alguém
Já te contei sobre quantas vezes quis, precisei, implorei para
que surgisse alguém para me salvar
Não da loucura, mas do abandono
Desse que se vive quando se sofre demais
e a angústia tem sons altos, uma verdadeira produção artística
sonorizações e equalização que nenhum megashow pode reproduzir
Sento num canto qualquer dessa casa tão vazia e solitária
quanto meu corpo, tanto quanto eu
Talvez a casa tenha deixado de se tornar a minha prisão
para ser espelho do que tenho sido
Perceber isso me assusta
Tapo os ouvidos para não ouvir a voz do medo
O medo cega, tem fome, desejo, vaidade e ganância.
Te contei que decidi escrever um livro enfim
Não sei como será, sobre o que será
Só não queria escrever cartas e falar sobre dor
Mas a vida também não é muito isso?
A roseira se despetalando no quintal me lembra
que posso falar de amor
Muito amor
Intensamente
Sutilmente
Arrebatadoramente
Eu sinto que vou tentar
Apesar de estar também cansada de tentar
Tentar ficar bem, tentar melhorar, tentar viver, tentar morrer, tentar brilhar
tentar luzir, proteger, aparecer, ser
Hoje não quero me esconder
Não vou beber, não vou comer demais e vomitar
Não tomarei drogas para dormir
Por muito tempo eu pensei que para estar com alguém
eu precisaria ter saúde, ter a vida arrumada
feito essa casa estranha, feito uma criança bem vestida e penteada
numa festa para outras mãe e pais elogiarem, não exatamente porque
ela gostaria de estar do jeito que estaria
Antes os pés descalços, os sorrisos ecoando pela rua,
a alegria causa muito suor...
Eu disse que estava aberta para o amor
mas nunca estive...
É preciso ter uma casa própria, ainda que alugada
É preciso ter sucesso, ter emprego,
ser gente diante daqueles com prazer de destituir as gentes de suas humanidades
Eu me fechei, me tranquei, me feri, me violentei até me esquecer
Agora, olhando as pétalas da rosa que se desfaz no chão
penso num rito, num banho para atrair o amor
e essa frase me pareceu algo como se o amor fosse um bicho
a ser atraído e preso, pego e domesticado ou até mesmo comido
devorado como a fome do medo, a fome do abandono, a fome de si, a fome de se livrar da dor 
Estou aberta para o amor
assim, Inteira por fora, remendada suscetivamente por dentro
alinhavada com linha encantada o tecido que me constitui
para que eu não me desfaça como fumaça para sempre, em qualquer esquina de mim
em qualquer esquina do mundo
Como vou abrir as janelas? Destrancar as portas?
Sair dessa escuridão infinita em que caí e fiquei presa?
Como era mesmo a história que eu contava?
"Nunca mais quero escrever para ninguém"
Hoje repito "Nunca mais deixarei que ninguém me impeça de escrever"