quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Retrospectiva

Talvez eu saiba tudo sobre ser triste.
Talvez eu consiga sorrir como ninguém nunca antes.
Rir do choro, chorar do riso.
Talvez eu consiga tirar proveito de tudo que passou.
Meu grande amor não está mais aqui.
Meu pé quebrado por mais de 8 meses.
Minha cabeça que nunca mais parou de doer.
Não sei como parar de desaguar.
Eu queria ir embora, mas parece que algo me aguarda.
Arrombaram a casa.
Embora pareça que já haviam levado embora há muito o sonho, a esperança,
levaram embora o emprego, o amigo, a confiança, a saúde antes disso.
Deixaram para traz uma raiva que corroeu os dias, e com os dias passados,
a raiva compreendida também passou.
Alguém me diz onde se aperta o botão para essa dor parar.
Me visto com meu melhor vestido, arrumo os cabelos, as unhas.
E levito pelas ruas como um anjo, como Vênus, como o sonho de um rapaz
de olhos profundos, transparecendo que toda sua procura era pela vibração da minha alma, ele parecia ouvir a pulsação do meu coração.
Ganhei um possível câncer de ano novo. "Trata que passa."
Ganhei um cartão dizendo "eu te amo".
Gosto mais dos desaniversários.
Gosto mais das crianças que me olham na rua, sorriem e escondem o rosto, se escondem, mas querem se aproximar para, num encantamento, virmos a vida toda colorida e possível.
Não tive força para terminar meus livros.
Meus contos pela metade. Talvez seja assim que os contos devam ser. Sem final.
Eu vi muitas histórias de amor.
Vi muitos corações. Muitas vidas doeram em mim.
Quase morri de frio várias vezes em várias rodoviárias diferentes.
Descobri outros níveis e significados para o sexo.
Me apaixonei perdidamente pela música.
Recuperei meu violão.
Voltei a nadar.
Todos os dias olho para a morte e ela não é monstruosa, é calma e silenciosa.
Converso com ela, esperando o dia que enfim, ela concorde comigo.
Devo pedir desculpas a vida por tê-la feito pensar que eu não me importava.
Mesmo que eu nunca tenha largado a sua mão... Ou foi o contrário?
Mesmo assim, caminhei até aqui com força, toda força. E coragem.
Sempre tive coragem, antes eu chamava de raiva, hoje eu sei o que é.
A vida sorri para mim como se cada dia fosse uma novidade, ainda que eu não consiga levantar da cama, ainda que passe o dia sem entender... Ela sorri e eu agradeço.
Muitas mãos soltaram da minha, embora as almas ainda estejam cruzadas, interligadas, ficando assim para o eternamente.
Todas as pessoas que me construíram, que ficaram um pouco em mim...
Todas as pessoas que foram construídas pelos meus sorrisos, meus enigmas, palavras de incentivo, pela minha energia correndo pelo corpo, assim como sangue correndo nas veias.
À noite, quando todos e todas dormem, a suas almas brilham feito fogos de artifício. É preciso manter o brilho aceso, e há quem vele para que o fogo nunca se apague. Mesmo até depois de não vermos mais quem amamos por motivos diversos.
A luz do dia me beija como quem deseja encher de ar os pulmões cansados de quem perde a esperança. Me enleva. E eu não estou mais sozinha.
Todos os agoras passam tão rápido.


Não corro. Não grito.
Todas as perdas aconteceram e alguma coisa me diz em segredo que talvez tenham sido necessárias.
Feliz ano velho somente o livro de Marcelo Rubens Paiva.
Eu ainda prefiro os desaniversários.
Eu vi todos os caminhos, mas preferi alimentar a ingenuidade que sempre me faz parecer nada conhecer, não ter olhos para ver, ou sentidos para perceber.
O vento me sussurrou: Nunca mais se negue.
Eu não gosto de promessas, para mim elas nunca foram cumpridas.
Mas eu rompi e prometi: Nunca mais. Todos os dias: nunca mais.
Então foi assim que eu acabei de me libertar. E toda vez que eu lembro eu sinto novamente que estou livre.
Sendo livre, tudo me é possível.
Olho para traz para poder continuar adiante, nua de todas as coisas.
O que importa, minha alma leva e minha mente recorda.
Tem gente que é feita de sol, outras de nuvem ou luar.
Eu preferi me constituir um pouquinho de cada coisa.
Então brilho, chovo, esquento, molho, seco, sopro, ilumino, fascino.
Transcendendo.
Nasci sob o signo da inquietude, da mutação, do para além.
Antes eu tinha medo de que descobrissem e me abandonassem.
Até eu entender.
Os caminhos mudam, se desfazem, se descruzam, se cruzam.
Encontros e desencontros, e as escolhas sempre falam mais alto e decidem vidas inteiras num momento.

Um comentário:

Drika L.S. disse...

Tão suave e tão profundo!
Esse texto fez minhas mãos gelarem e meu coração bater mais rápido... Que bom que recuperou seu violão! Sou meio frustrada por não saber tocar nenhum instrumento musical. Mas se precisar de olhos, ouvidos, estou aqui com todos os sentidos prontos para servi-la! ;)