sexta-feira, 21 de março de 2014

Grito interior

Leão saiu porta à fora. Sua cabeça doía, os pensamentos embaralhados.
Por que amar era tão difícil? Por que ser quem ele era, do jeito que era, parecia errado e estranho?
Posse não, Leão, liberdade para o teu amor poder crescer. Ter filhos pode até ser, dizem que teu sorriso fica mais bonito e se repete em outro alguém, teu pedaço no mundo.
Mas que mundo é este que um pedaço de mim viverá, se nem eu consigo respirar?
O que eu posso fazer por ela? Ela com sua dor imensa pelas prisões e violência do passado dela, situações que eu não participei, não consigo imaginar como ela lembra e nem como dói nela.
Leão atravessava as ruas sem olhar para os lados, havia mais barulho dentro dele do que em qualquer outro lugar. E começava a correr e a chorar, e voltava a andar normalmente e se cansar. Não queria voltar para casa. Que casa? Já não se sentia pertencente a lugar algum.
Há um mês atrás estava dentro do trem quando viu, através do vidro das janelas, uma mulher sendo espancada e estuprada por três homens. As portas iam se fechando, Leão gritando, correndo pelos vagões: Parem esse trem! Pára a porra do trem!
Parem essa droga de mundo...
Desceu na última estação e não dormiu aquele dia, tremeu e ficou com olhos vidrados, paralisados.
(...)
Era ontem, outros dias passados onde esperava colorir com suas tintas e risos, sua paixão e quem queria ser para sempre, mas lutar com a realidade parecia cada vez menos possível. Andava pelas madrugadas vazias.
Às vezes dormia sentado num beco qualquer da cidade que chovia. Era a natureza chorando por tanta abominação, tanta ignorância... Tanto tudo. Tudo nada.
Seu melhor amigo morreu assassinado no ano anterior, confundido com um assaltante. Morreu a pauladas na Av. Sete, por outros rapazes que queriam mais segurança e justiça na cidade, já que a polícia não sabia fazer o seu trabalho e a "segurança" era pouca. Quando encontraram o corpo de Júlio, um papel pregado explicava: Menos um lixo na cidade. Morre negro sujo, filho da puta!
(...)
Leão era pintor, mas suas tintas haviam secado.
Saiu de casa cedo e até agora não voltou.
Seu pai olha a janela e aperta a blusa onde fica o peito, onde o coração velho avisava loucuras que preferia não acreditar.




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