domingo, 24 de março de 2013

Guerreiro dos dias





"O sertão está dentro da gente”
Guimarães Rosa

                          "Ele era capitão da terra, da mata e dos caminhos abertos desde pequeno. 
                                                                 Sabia e sentia.
Um céu azul profundo abraçava-o inteiro, enquanto os ventos do sul vinham beijar a sua face, só porque o amavam. Olhos fechados, inspirava os sonhos perdidos daquelas terras. 
O chão queria o seu passo manso e certo, as águas encontradas feito oásis queriam sua temperatura para si. 
As cores do seu corpo em cada planta, cada pássaro, toda flor.

Encegueirado pela paixão de correr mundo, ele esqueceu de correr o mundo que havia dentro de si mesmo. E Já não enxergava o que via. Via e já não sabia. 
Certezas demais apertavam seu coração inchado de vazios. 
Ele esperava. E era a raiva, e era a dor, desejos de ser grande, ser além, abraçar as dores das gentes e aliviar as fomes diversas dos caminhos fechados, que ele mesmo romperia, com um único pontapé, portas, paredes e injustiça.

No seu cavalo de duas rodas, ele corria pelo asfalto da cidade de mármore na mesma velocidade da sua vontade de vencer a selva daquelas pessoas de corações acinzentados, sorrisos amarelados. 
Vencer sendo grande para tanta gente pequena que precisava de voz, e não tinha. 
De casa e não morava, de amor sem saber como amar.
Esquecia seu próprio mal para o bem fazer, e forte tornar os braços e o pensamento dos esquecidos, devolver a memória das mulheres sem rostos, com suas crias, que talvez não criassem,  brotando num mundo vão.
Solidão.
Dentro dele mesmo a busca por tentar compreender era tão grande quanto o desejo de fazer e provar que a vida poderia ser muito mais do que um deserto sem fim, onde o mundo parecia não dar nem direito e dignidade àqueles e àquelas que dele necessitavam.
Tempo. 
Corpo de menino se transformando em corpo de homem, vontades de homem. 
Conflitos escondidos através de uns olhos castanhos profundos e 
um sorriso cheio de estrelas, alargado pela paixão. 
O Amor veio visitar o Capitão das terras, trazendo chuva para o seu sertão, fazendo brotar flor, matando de sede os bichos interiores. 
Capitão não era mais solidão. 
A chuva trouxe de volta os rios, as plantações, e a esperança junto com um pedacinho de gente, metade do seu corpo. Agora, seu universo inteiro.
E era por ela que ele lutava. A multidão se tornou uma menininha só. 
Aquela era a parte que lhe cabia no latifúndio do existir. 
Nunca quisera delimitar a terra, pois era dono dela, toda sua extensão, liberdade.
 Ela sempre fora sua amiga, abraçava-o e dava para ele os vislumbramentos 
de dias menos pesarosos. 
Mas, era preciso ganhar o pão. 
Vencer os monstros da selva de pedra para dar dignidade a sua própria cria, extensão de si, herdeira de seus bens maiores, dos quais só se poderiam sentir. 
Mas, sentir não bastava na realidade crua.
Rua deserta, porta aberta. O futuro é o sorriso dela, pequenina. 
O pulsar do seu coraçãozinho é o ponteiro do relógio do tempo dos dias desertos do Capitão. 
E a chuva, quando virá? Ele não sabe. 
Só tem uma certeza: nunca mais estará sozinho. E por isso ele luta."

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