"O sertão está dentro da gente”
Guimarães
Rosa
"Ele
era capitão da terra, da mata e dos caminhos abertos desde pequeno.
Sabia e sentia.
Sabia e sentia.
Um
céu azul profundo abraçava-o inteiro, enquanto os ventos do sul
vinham beijar a sua face, só porque o amavam. Olhos fechados,
inspirava os sonhos perdidos daquelas terras.
O chão queria o seu
passo manso e certo, as águas encontradas feito oásis queriam sua
temperatura para si.
As cores do seu corpo em cada planta, cada
pássaro, toda flor.
Encegueirado
pela paixão de correr mundo, ele esqueceu de correr o mundo que
havia dentro de si mesmo. E Já não enxergava o que via. Via e já
não sabia.
Certezas demais apertavam seu coração inchado de vazios.
Ele esperava. E era a raiva, e era a dor, desejos de ser grande, ser além, abraçar as dores das gentes e aliviar as fomes diversas dos caminhos fechados, que ele mesmo romperia, com um único pontapé, portas, paredes e injustiça.
Certezas demais apertavam seu coração inchado de vazios.
Ele esperava. E era a raiva, e era a dor, desejos de ser grande, ser além, abraçar as dores das gentes e aliviar as fomes diversas dos caminhos fechados, que ele mesmo romperia, com um único pontapé, portas, paredes e injustiça.
No
seu cavalo de duas rodas, ele corria pelo asfalto da cidade de
mármore na mesma velocidade da sua vontade de vencer a selva
daquelas pessoas de corações acinzentados, sorrisos amarelados.
Vencer sendo grande para tanta gente pequena que precisava de voz, e
não tinha.
De casa e não morava, de amor sem saber como amar.
Esquecia seu próprio mal para o bem fazer, e forte tornar os braços
e o pensamento dos esquecidos, devolver a memória das mulheres sem
rostos, com suas crias, que talvez não criassem, brotando num
mundo vão.
Solidão.
Dentro
dele mesmo a busca por tentar compreender era tão grande quanto o
desejo de fazer e provar que a vida poderia ser muito mais do que um
deserto sem fim, onde o mundo parecia não dar nem direito e
dignidade àqueles e àquelas que dele necessitavam.
Tempo.
Corpo de menino se transformando em corpo de homem, vontades de
homem.
Conflitos escondidos através de uns olhos castanhos profundos
e
um sorriso cheio de estrelas, alargado pela paixão.
um sorriso cheio de estrelas, alargado pela paixão.
O Amor veio visitar o Capitão
das terras, trazendo chuva para o seu sertão, fazendo brotar flor,
matando de sede os bichos interiores.
Capitão não era mais
solidão.
A chuva trouxe de volta os rios, as plantações, e a
esperança junto com um pedacinho de gente, metade do seu corpo.
Agora, seu universo inteiro.
E
era por ela que ele lutava. A multidão se tornou uma menininha
só.
Aquela era a parte que lhe cabia no latifúndio do existir.
Nunca quisera delimitar a terra, pois era dono dela, toda sua
extensão, liberdade.
Ela sempre fora sua amiga, abraçava-o e dava para ele os vislumbramentos
de dias menos pesarosos.
Ela sempre fora sua amiga, abraçava-o e dava para ele os vislumbramentos
de dias menos pesarosos.
Mas, era preciso
ganhar o pão.
Vencer os monstros da selva de pedra para dar
dignidade a sua própria cria, extensão de si, herdeira de seus bens
maiores, dos quais só se poderiam sentir.
Mas, sentir não bastava na realidade crua.
Mas, sentir não bastava na realidade crua.
Rua
deserta, porta aberta. O futuro é o sorriso dela, pequenina.
O
pulsar do seu coraçãozinho é o ponteiro do relógio do tempo dos
dias desertos do Capitão.
E a chuva, quando virá? Ele não sabe.
Só
tem uma certeza: nunca mais estará sozinho. E por isso ele luta."

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