segunda-feira, 18 de março de 2013

Corpo Nu

Será que vou enlouquecer no próximo minuto?
Parece que eu sei dos meus fantasmas, mas não consigo afastá-los, superá-los.
Quero amor. Não sei amar? Como é que se sabe? Existe receita?
Dou amor. Sou toda amor e atenções. Não posso cobrar reciprocidade. Cada um, cada uma é um universo, e sente e vê a vida de determinada forma. Quebra-cabeças amorosos.
E minhas lutas diárias? Ter motivos para lutar sem sofrer com a luta. Sem sofrer com a discriminação
e o preconceito. Sem me revoltar com a ignorância e seus ecos de que "O mundo é assim mesmo,
não seja inocente!".
Conflitos.
Conflitos me acordam e não me deixam dormir. Caminham e nadam comigo. Tomam banho, café e amam quando amo também.
Quero protestar pelas ruas, sem blusa, escrito em vermelho na testa: Liberdade! No meu colo, entre meus seios e minha barriga: O corpo não é um objeto! Nas costas, cravadas como uma bandeira no terreno conquistado: Ressignificação de conceitos, já!
Minha mãe é uma mulher de 46 anos. Não conhece a CLT, não sabe sobre aposentadoria ou direitos trabalhistas ou jurisdição. Trabalha na limpeza de um Hospital privado. Educou duas filhas sozinhas na década de 80 e 90. Foi Empregada doméstica, vendedora autônoma e não terminou o ensino médio. No cansaço do dia a dia o que era mais importante? Ela já não pensava, agia mecanicamente para conseguir dar um pouco de dignidade as filhas, e a Educação que não teve a oportunidade de ter, receber, continuar.
Como ela, milhões de brasileiras estão por aí, sem nem mesmo saber o que significa "Direito". Subjugadas pelo sistema político-econômico-social em que estão inseridas. Sem saber de Lei ou Lutas por Direito. Apenas querem criar as suas crias, chegar em casa e ter o pão e as contas pagas no final do mês.
E eu penso se sou tão forte quanto essas Mulheres, se posso representá-las e lutar por dignidade para todas e todos nós. Se não sucumbirei aos conceitos antes de chegar aos atos, se terei força para continuar e não parar no meio do caminho. Não por desistência, mas por ser engolida pelos meus próprios fantasmas, minha história escrita no sangue desde o nascimento, a história de todas as Mulheres, todas as gentes, de todos os tempos.
Tiro minhas vestes gastas, meu corpo nu, cheio de cicatrizes do tempo, feitas pela solidão, pelas revoltas, pelo silêncio quando o que se queria era gritar. Sobretudo, cicatrizes das feridas feitas quando não compreendi. E as feridas ainda abertas por não compreender.




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