"E riu aquele sorriso cheio de estrelas dele. O sorriso daquele que a gente ama sempre esconde estrelas."¹
Digo o que ainda não posso dizer.
As palavras escorregam pelas mãos, feito água,
meu corpo se desfazendo, em desejo, em mudança, em esquecimento.
Vou soltando a sua mão devagar, esquecendo da textura dos seus cabelos,
tirando a sua voz dos meus ouvidos com suas lembranças, lugares, músicas,
pessoas, passado e vida. Tudo que foi nosso. Tudo que era seu.
Quando me aproximo demais do amor, me sinto sufocada, bicho enjaulado.
Mas... que amor?
Desde que nascemos aprendemos sobre o que é o amor. Como nasce, como dar, receber. Seu sabor, entonação, seu desequilíbrio, sua cordialidade massacrante e hipócrita, tantas vezes.
Noções e contraceptivos para não sofrer ou sofrer da maneira adequada.
Nos livros, na música, em todas as artes o amor dança sua valsa alucinada, seu rock de ruptura, seu punk sujo, sua guitarra baiana alvoroçada.
Trazendo no bolso sua gaita envelhecida e sua sanfona avermelhada.
Até onde vai? Volta? Como fazer durar?
Eu aprendi que na vida só se tinha um grande amor.
E quando eu o encontrasse a minha vida estaria completa,
e tudo mais seria conquistas do caminho, consequências do querer.
Eu o conheci. E um dia, fomos embora, um do outro.
E agora, o que fazer? Se o amor da vida já não é amor, já tem outro amor. Já não mais?
Ia ser só isso? Tão pouco?
Quase nada. Refeição sem prato principal, sem sobremesa, sem pegar a receita para repetir muitas vezes depois.
Tantas coisas não são exatamente aquilo que aprendemos que seria.
As teorias ficam obsoletas, as músicas saíram de um coração partido.
E as configurações de uma relação vão se tornando cada vez mais diversificada, subversões ancestrais. Hoje, ontem e amanhã.
Não tenho respostas para o meu amor, meu desamor, para tantas
perguntas que nasceram na fronteira da despedida.
Tenho percebido uma maior sensibilidade entre casais homossexuais
do que heterossexuais.
Me confunde? Não. Apenas silencia a voz que gritava em mim cheia de razões inúteis.
O que te faz amar alguém? Os cheiros, o jeito de sorrir, de esquecer-se de
repente olhando o sol na janela, o mar, os seus olhos? A intimidade que
se conhece e se pode aprender a respeitar?
O que te faz deixar de amar? O que rompe a ligação? O que faz de um universo em comum, dois mundos distintos? O que muda? Como muda?
Agora, estou em queda livre no espaço.
¹Trecho do romance "Henrique", escrito por Àllex Leilla.
Nenhum comentário:
Postar um comentário