ÂNGULO 1
Nós falávamos do que falávamos. 0 que íamos ser quando saíssemos do colégio e o que íamos estudar não estudar e fazer não fazer universidade. Quem ia ser dona-de-casa? A menina dos olhos verdes ia ser jornalista. A menina negra ia estudar medicina. A menina loura namorava um rapaz do último ano de arquitetura e ia ficar noiva na formatura dele e ia ser dona-de-casa. Projetos jatos assomos feixes luminosos. Manhã de rios inaugurais. Sol nascente e imponderáveis arborescências. Falávamos do que falávamos. Noivado universidade véu grinalda diploma. 0 futuro era um arco suspenso acessível a nossos desejos. Eu ia estudar na escola de belas artes como o meu namorado dos cabelos cor de mel. Ele ia fazer vestibular no começo do ano. Eu faria no ano seguinte. Me casava e estudava. Ou casa ou estuda por quê? Vozes eram vozes que havia e mastigavam o que haveria de haver. Por que era melhor casar e ser rainha do lar? A menina dos cabelos cor de fogo era puta na rua das putas. Por que ela não podia se casar? Por que não podia estudar? Eu queria meu lar. Eu me dividiria entre cuidar da família e pintar. Eu e minhas colegas falávamos do que falávamos. Asas transparentes e flores vermelhas emergiam de nossas mãos nascentes. Quatro auroras se iluminavam de nós mesmas.
Versão online do Livro As Dozes Cores do Vemelho, de Helena Parente Cunha.
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