Todas as manhãs é uma escolha.
Escolha entre levantar e enfrentar a vida, embora o que eu queria realmente era
ficar entre os leçois até inventar algo que me tire desse labirinto de aniquilaçao.
Ou sucumbir a loucura que me acorda, dizendo que eu preciso assumir a minha diferença,
meu modo torto de lidar com a realidade, modo que aprendi observando a vida desorientada,
com seu estilete enferrujado, perfurar o meu baço, meu rim, meus pulmões, e como um câncer, voltar para que eu tenha certeza de estar andando pelo caminho errado.
E o que eu faço para ter os meus dias de sol e o meu sonho, como nunca antes?
Como faço para recuperar aquele sorriso, a minha voz, meu cabelo vermelho,
o meu amor, próprio e alugado? Adquirido ou Usurpado?
Eu sei, desaprendi como acreditar. Confiança é artigo de luxo no mecado municipal da minha cidade sempre saqueada.
Eu sucumbirei a mesmice, a máscara permanente, camaleonica, para ser de acordo com a necessidade?
Deixarei os discursos da Loucura se tornarem diálogos,
entre mim e ela, linha tênue entre ser e parecer, fingir e realizar.
E a palavra que eu espero nunca veio, não vem.
Existe mesmo a necessidade de escutar, de flexibilizar o caráter diante da necessidade?
É preciso sempre escrever cartas para se retratar?
Eu sou uma mulher, como todas as outras.
Não sou ninfeta, não sou santa, não finjo para conseguir.
Fujo dos estereótipos para não adoecer.
Somos duas. Nos interessamos pelo mesmo rapaz. Mas ele escolheu ela.
Por que eu não posso simplesmente aceitar que ele a tenha considerado mais sexy,
mas interessante e desejável?
Por que eu tenho que cuspir que ele só escolheu ela, porque ela faz sexo no primeiro encontro,
salientar que ela é gorda, superficial, e tantas coisas que só demonstram a minha insegurança,
meus conceitos tortos, minha falta de bom senso e raciocínio.
Não diga que não é, só porque não viu nem conseguiu perceber.
Todos os dias é uma escolha.
A morte em seus diversos personagens vem sentar ao meu lado.
_ Se tudo isso fosse covardia, eu não precisaria estar sempre rondando os passos do homem da farmácia, da menina com fones de ouvido na janela do ônibus, do menino sem casa, sem rumo, com a vida de metira que ele criou para não segurar a minha mão.
É preciso enfrentar.
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