terça-feira, 28 de abril de 2009

siLÊnCiO

Ela sabia que tinha que ser forte.
Percebeu que levava uma vida deprimida.
Sua palavra contida, seu sorriso desaprendido.
Era assim pela vida que sempre sonhava, mas que nunca tinha.
Cansavasse repetidas vezes de se cansar de tudo, da sede nunca saciada,
das coisas que não tinham tempo de serem sabidas.
Tinha que ser forte, aprender a ser forte na sua solidão,
nos seus passos assombrados de quem busca ter uma vida livre, maior.
Queria pintar, tocar piano, viajar, ler e escrever todos os livros que pudesse.
Queria esquecer seu amor solitário, e tantos sentimentos que a faziam tropeçar.
Quanto tempo mais esperar?
Precisava de coisas palpáveis que a fizessem saber da possibilidade.
Cansou de ser feita de abstrações.
Não sabia o que era aquele enlevo alucinado que se insinuava
em momentos extremos.
Seria a loucura? A perda da sanidade social, a sua instituição intelectual, seus modos sob
medida para esconder a consciência na corda bamba.
Um ódio ensurdecedor, voraz, a correr pelas veias, ansiando modificar a vida cristalizada pela ignorância.
Era preciso aprender a lidar com a solidão irremediável,
evoluir no silêncio, gastando o tempo, sem se preocupar se o tinha,
ou se ele se esquivava, fugia.
Era urgente inventar uma saída,
para não está morta enquanto atravessa uma rua,
anda entre gôndolas do supermercado, enquanto assisti uma aula,
enquanto dorme, enquanto olha.
Numa realidade surda, sua única voz escorre pelo rosto como um grito
de liberdade, como uma porta no labirinto onde se perdeu ao nascer.
Não vai abrir a porta, não vai atender ao telefone.
É urgente.

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