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| Salvador Dalí |
Temos o potencial para vivermos diversas vidas.
Mas no final das contas acabamos vivendo apenas uma.
Li uma vez esse trecho num livro de Gaston Bachelard.
Até hoje, vivi duas vidas. Uma passou. A outra começa.
Senti nitidamente a morte perpassando os meus ossos,
a transição do espírito. Não do corpo, mas percepções espaciais, metafísicas.
Na outra vida, tive romances coloridos, de ano novo e são joão.
Amores de agosto e setembro. De tempos chuvosos e de sóis lambedores de chão, jardim, e causadores de suores perfumados.
Tive um grande amor que virou doença. Deixou de ser amor para ser dor,
doendo nos nervos, no pensamento, no pisar o chão, no existir.
Eu sentia que a cumplicidade me salvaria.
Não havia cumplicidade. Nada era de verdade.
Reviravoltas ancestrais. O antigo veio chamar o meu nome. O tempo de antes se fundiu com o meu agora que foi ontem, e todos os tempos se cruzaram.
Eu não tive força para suportar possibilidades existenciais.
"De tudo há um pouco. Não duvide."
Tive que morrer. Morrer era a única solução.
A violência do novo nascimento ainda me dói, feito surra recém tomada.
Acidente sofrido. Choro esquecido de parar.
Nesta vida de agora nada do que era antes existe.
Reaprendo, feito criança recém nascida, a reconhecer o mundo,
questionar a vida, as atitudes, os modos de fala, pronúncia, caminhos.
Aprendo cores e gentes. Como é sentir? Reaprendo.

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