segunda-feira, 26 de março de 2007

Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado



Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta

De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca



Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado

Cálice, Chico Buarque



O silêncio, muitas vezes é algo obrigado, obrigatório, imposto,
e aquela palavra engasgada, a idéia que cresce mas não se mostra,
e se vai andando pela rua, carregando um universo no peito,
que as vezes pesa tanto, e esmaga tanto o sentimento, o peito
que fica pequeno, um lugar apertado, denso, com tanta coisa que precisa
ser dita, vomitada, sabida. Sentimento guardado, trancafiado, é um pedaço
de si que vai morrendo de asfixia, de uma certa dor mansa...

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